quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O NATAL



Eu e Selminha resolvemos passar o natal juntas, em casa. Foi até bom, pois que o natal me soa muito triste e muito falso.
Pela manhã fomos juntas a um supermercado e compramos umas coisinhas para a nossa ceia particular. No natal, adoro comer rabanadas, é a minha iguaria natalina predileta, desde muito pequeno, e Selminha prometeu que iria me ensinar a fazer. Nunca aprendi a fazer coisíssima nenhuma, pois que minha mãe, quando viva, nunca me deixou aproximar da cozinha ou fazer alguma coisa. Lembro vivamente: ficava de longe, escondidinha, ás vezes, como quem não quer nada, apreciando minha mãe preparar as coisas para a ceia ou a qualquer outra eventualidade festiva que se fazia em casa. “Você é o homenzinho da casa, e seu lugar de homem não é na cozinha. Vai ajudar seu pai!” ela me dizia. Não me era permitido sequer lavar meu próprio prato após as refeições. Nunca entendi o porquê daquilo. Mas enfim, cresci sem aprender cozinhar ou me virar nas tarefas domésticas. Só agora, vivendo sem a sua presença, é que vim aprender de fato a cozinhar, graças a Selminha que tem uma paciência de anjo. Na sua ausência - pois que o seu trabalho consome uma metade do dia - sou eu que preparo o almoço, deixo tudo arrumadinho em casa, e parto para a escola onde desempenho minha função de professora há quinze anos. Se um dia Selminha me faltar também, ao menos eu saberei me virar perfeitamente.
Esse breve pensamento me veio justamente hoje, no dia de natal, enquanto fazíamos as compras. Paramos em frente a uma prateleira de vinhos, e de pronto acordo, escolhemos juntas um Barolo Safra 90, recomendado por mim. Esta minha afeição por vinhos, atribuo ao gosto pela vida. A vida é como um bom vinho, deve-se degustar milimetricamente.
Ao sairmos do supermercado, passamos numa locadora e escolhemos também um filmizinho para nos distrair, pois que ficar na frente da TV assistindo o especial do Roberto Carlos, ou todos esses programas insuportáveis que passam na noite de natal, não condiz com nossa espiritualidade e bom senso natalino. Nesse ponto, eu e Selminha combinamos tão bem.
Em casa, sozinhas e ao som de “L´amour Est Bleu” do Paul Muriat, e outras cançõeszinhas francesas que adoro ouvir, fomos pra cozinha e botamos a mão na massa. Selminha, além das rabanadas, ensinou-me também a fazer uma deliciosa torta de morango, salpicão, saladinha fria, e um simples e delicioso sorvete de cupuaçu. À noite, montei-me direitinho, estreando um vestidinho azul meia taça e um saltinho preto. Selminha também estava linda com um vestidinho preto bem justo, que juntas havíamos escolhido para aquela noite. Não esperamos o relógio anunciar meia noite para darmos inicio a nossa pequena celebração particular, como reza a tradição, de modo que nos servimos do vinho e o fomos degustando devagar, enquanto assistíamos um clássico do Fritz Lang chamado “O Diabo Feito Mulher”. Marlene Dietrich estava impecável e sedutora nesse filme. Acho que bem mais que o “Anjo Azul.” Morro de amores por Marlene Dietrich. Na outra encarnação, virei pecadoramente linda, como Marlene Dietrich.
Depois, fui até a varanda com meu copo de vinho, e vi a cidade lá embaixo piscando suas luzes natalinas. As ruas desertas e frias. Os vizinhos aos arredores já haviam partido para a casa de seus familiares, de maneira que me pus livremente na sacada a desfilar para lá e para cá. Alguns fogos já começavam a explodir timidamente nos céus da minha cidade. Eu via suas luzes e sua tristeza. Sua alegria e sua ausência. Minha cidade ás vezes me parece assim: alegre e triste. Presente e ausente. Tudo ao mesmo tempo. Ela reflete o que eu sou. Ih, acho que é o vinho ou a música invisível que ouço tocar agora bem lá dentro de mim. Uma música doce e triste de natal. Selminha aproximou-se, pegou-me pela cintura e começamos a dançar a tal música invisível na sacada. Os fogos explodiam afoitos cada vez mais acima de nós, colorindo todo o céu. Senti falta da minha mãe. Era o meu primeiro natal sem ela. Sem o aconchego de seu útero materno. Encostei docemente minha face na face de Selminha e perguntei a ela se um dia teria coragem de me deixar e viver sua vida longe de mim. Ela não me respondeu. Eu em seu lugar também não saberia responder. A verdade é que 2009 estava se acabando, e 2009 foi sem dúvida um ano de decisões e revelações, em que eu finalmente tive a coragem de assumir o que eu sou para ser feliz de verdade...
Manaus 28/12/2009

4 comentários:

  1. Olááá... Vi tua mensagem lá no blog, e aqui estou, rsrs =)
    Parabéns pelo teu blog. Estou seguindo, para conferir as novidades.
    Super beijo...
    Bia. =***

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  2. Marcia, super bacana teu blog. Interessante, profundo, sensível...adorei.
    Estou seguindo, e se puder seguir o meu, eu agradeço querida.
    Beijinhos.
    Susi

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  3. Ninguém imagina que sou cdzinha.
    Quando fico só, e uso roupas femininas e enfio consolos no meu cu.
    1,65 altura 63 kg bunda redonda cu depilado pele clara.
    Meu pinto fica duro e meu cu pisca dentro da lingerie.
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