Impaciente com a minha demora, Walmir já havia me ligado umas dez vezes para saber de minha chegada. Tentei acalmá-lo dizendo-lhe que já estava a caminho. E eu de fato já estava à caminho. Selminha, ao meu lado, emcoraja-me os passos indecisos. Ao chegarmos a rua Quintino, avistamos de cara um letreiro neon assinalando que ali era o Hotel Natália. Nos despedimos. Selminha tomou seu rumo, e eu, parada á porta daquele hotel, passei a me sentir como uma verdadeira puta à DELIVERI. Respirei fundo, e adentrei o recinto caminhando até a recepção:
"Boa noite! Um amigo me aguarda no 203." A recepcionista olhou-me com certa naturalidade, talvez supondo que eu fosse de fato uma mulher, o que me deixou mais á vontade, e apontou a direção do quarto que ficava nos fundos do corredor. Duas batidinhas de leve na porta e ela logo entreabriu-se, surgindo do outro lado, um sujeito bem mais baixo que eu, de cor ligeiramente parda, olhos miúdos e inexpressivos, cabelos curtos e um bigodinho engraçado ornamentado-lhe os lábios sem cor. Sem dúvida, um sujeito desprovido dos parâmetros da beleza. Mas o que é a beleza senão um encanto efêmero e ludibrioso? E Márcia (volto a repetir), por possuir umas das muitas virtudes presentes na natureza feminina, não ligou muito para as qualidades físicas presentes no sujeito e resolveu entrar, sorrindo-lhe de leve. O quarto era excessivamente pequeno e penumbroso, iluminado apenas por uma luz fosca que vinha da televisão ligada, onde e claro, rolava um filme de sexo.
"Poxa, que demora hein? Pensei que não vinha mais." Disse ele sentando-se em posição de lótus no centro de uma cama pequena posicionada no centro do quarto. Segurou-me um instante uma das minhas mãos, convidando-me a sentar. Já acomodada, corri meus olhos pela extensão do lugar questionando-me o por que da escolha de um quarto tão pequeno e desconfortante? Um quarto para as coisas práticas do sexo. Não havia sequer um frigobar ou um banheiro decente.
"O que foi Márcia? Pensativa..."
"Não, tudo bem." Sorri-lhe novamente despositando minha bolsa sobre o criado mudo. Ele se chegou mais perto e afastou-me a peruca para o lado, tocando-me grosseiramente a altura do ombro. Relevei aquele toque. Parecia mais excitado do que feliz ao me ver. Foi a impressão que tive. Seu sorriso ia de um canto a outro da boca pequena. Seus olhos miúdos e desinteressantes continham lá no fundo um brilho de satisfação de um animalzinho afoito. Quanto a mim, sentia-me como se estivesse cometendo algum delito. Delito não por representar uma puta, pois que não tenho nada contra elas - quero deixar claro, mas por estar na companhia de um homem casado e que certamente só me queria por algumas horas para alimentar seu fetiche e saciar sua sede de sexo. E sexo não é o que buscava nesse primeiro instante. Mas o que eu buscava então? Apertava-me com mais força os ombros enquanto eu olhava agora para uma coluna de gesso que entrecortava verticalmente o pequeno quarto. O que aquela coluna estaria fazendo ali?Uma pergunta boba e típica de uma mulher tentando fugir de questionamentos mais profundos e relevantes daquele momento. Gemidos de prazer e morte vinham da televisão. O ronco gutural e perturbador do aparelho de ar me feria os ouvidos. E aquele sujeito baixando a alcinha de minha blusa sem nenhum cuidado aparente. "Relaxa, gostosa!" Dizia-me. Seus dedos agora buscando o caminho dos meus seios. Sua outra mão, a direita, eu supunha - mas que diferença faz, descia afoita em direção as minhas coxas expostas. Definitivamente eu não o queria. Não daquela forma abrupta. "Voce é muito gostosa! Do jeito que eu imaginava!" Se ao menos ele repetisse aqueles gestos literarios que prazerosamente eu os lia na minha caixa de mensagens. Ou até mesmo suas confissões gentis e prenhes de carinho que ouvia pelo telefone. Mas, "relaxa gostosa?" me soava fria e animalesca. Afastei bruscamente suas mãos e me levantei caminhando até o banheiro. Ele permaneceu na cama, acariciando o próprio pênis, como um bichinho estúpido. No banheiro, me detive olhando-me na profundidade do espelho. Não me veio nada a mente, apenas uma súbita vontade de deixar aquele quarto. Foi quando sua pequena e insignificante sombra, assomou a porta do banheiro e caminhou em minha direção, enlaçando-me por trás a cintura. Fiquei em silêncio, na esperança de que ele se reconciliasse com seu doce cavaheirismo e assim, salvar o barco que naufragava. Mas tudo que me disse, foi um "Fugindo de mim, gostosa? Não está gostando do encontro?" Não sei porque não gostava do termo "gostosa" usado por ele. Se ao menos trocasse por um outro, tal como, princesa, querida, amor... Ou talvez eu estivesse mesmo exigindo muito daquele homem e daquele encontro, ou talvez Márcia ainda precissasse saber mais um pouco sobre a vida. Afinal, ela estava apenas no início. O sol ainda, uma auréola de espinhos.
Arrastou-me de volta a cama e fez-me sentar nela. Começou dessa vez a beijar-me com sofreguidão o pescoço. Suas duas mãos trabalhavam sobre minhas coxas, febrilmente, tentando abri-las á força. Nenhuma palavra doce ouvia de sua boca. Só um vapor quente, morno, que dela exalava. Percebendo a inutilidade de seu esforço, desistiu e olhou muito sério para mim.
"Porra, Márcia! O que tá havendo? Só temos meia hora pra curtir, e tudo graças a tua demora em chegar. Sabes da minha condição; que não posso ficar muito tempo aqui!" Olhei dessa vez dentro daqueles olhos pequenos e negros e disse-lhe: "E será que voce esqueceu do acordo que fizemos?"
"Que acordo foi esse, Márcia?"
"Nada de sexo no primeiro encontro."
"Que merda, Márcia! Quer da uma de santinha agora, é?" Senti um engasgo. Um amargo. Um vazio. "Não, não é isso..."
"Então o que rola?" Inutil explicar-lhe. Ele não entenderia mesmo. Por isso calei. Tentou beijar-me á força novamente, e mais uma vez fugi de seu implacável assedio de animalzinho afoito, empurrando-o para longe. Apanhei minha bolsa sobre criado mudo e pus-me de pé com a mão na maçaneta. Deitado sobre a cama, o sujeitinho ridiculo olhava sério para mim. "Então é assim? Eu me arrisco vindo até aqui para este encontro que enrrolastes durante dois meses, para nada? Quem voce pensa que engana, menina, representando a santinha? Tu és uma puta! és e serás sempre uma puta!"
Suas palavras soaram como rios de gillette garganta abaixo. Não fiquei ali para ouvir mais nada. Abri a porta e o deixei falando sozinho no quarto. Atravessei o corredor do hotel contendo um filete de lágrima que brotou do canto de meu olho esquerdo. Deixei o Hotel Natália e ganhei a rua escura e úmida da avenida principal. Ainda ouvia o eco de sua voz dizendo: "Quem voce pensa que engana, Márcia? Serás sempre uma puta!". Novamente um engasgo. Um amargo. Um vazio. Caminhei perdida pela cidade traçando um rumo ignorado. Fui parar acidentalmente na Igreja Matriz, onde havia uma quermesse acontecendo. Queria estar no meio das pessoas para dissipar os ecos da minha cabeça. Numa barraca de pescaria, tentei ligar para Selminha, e nada. Estava fora de área. Deixei a quermesse e me dirigi ao porto hidroviário que ficava algumas quadras dali. O lugar estava bastante animado, com quase todas as mesas ocupadas. Escolhi uma mesa solitária. Na serena e doce luz dos abajures do porto, bem defronte do rio que agora soprava sua doce e fresca brisa em meu rosto, optei por uma bebida leve. E me deixei ficar ali meditativa, olhando os barcos e navios que atracavam no porto. Isso demorou, creio eu, duas longas horas, tempo suficiente para que todos os meus temores e dúvidas acerca de mim mesma se dissipassem e eu voltasse a ser aquela mulher segura, forte, feliz e convicta que eu era. A vida, pressumo eu, é cheia de degraus em que sempre se precisa manter o equilibrio dos saltos para não desabar. E se desabar, tornar a eguer-se de novo: ereta, altiva.
Um homem, na mesa ao lado olhou-me e sorriu. Aquilo talvez fosse um discreto convite. Retribuí com um sorriso, mas fiquei onde estava. Precisava estar só comigo mesma. Reiventando-me. Recriando-me.
Ai o telefone tocou. Era Selminha...
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