quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O NATAL



Eu e Selminha resolvemos passar o natal juntas, em casa. Foi até bom, pois que o natal me soa muito triste e muito falso.
Pela manhã fomos juntas a um supermercado e compramos umas coisinhas para a nossa ceia particular. No natal, adoro comer rabanadas, é a minha iguaria natalina predileta, desde muito pequeno, e Selminha prometeu que iria me ensinar a fazer. Nunca aprendi a fazer coisíssima nenhuma, pois que minha mãe, quando viva, nunca me deixou aproximar da cozinha ou fazer alguma coisa. Lembro vivamente: ficava de longe, escondidinha, ás vezes, como quem não quer nada, apreciando minha mãe preparar as coisas para a ceia ou a qualquer outra eventualidade festiva que se fazia em casa. “Você é o homenzinho da casa, e seu lugar de homem não é na cozinha. Vai ajudar seu pai!” ela me dizia. Não me era permitido sequer lavar meu próprio prato após as refeições. Nunca entendi o porquê daquilo. Mas enfim, cresci sem aprender cozinhar ou me virar nas tarefas domésticas. Só agora, vivendo sem a sua presença, é que vim aprender de fato a cozinhar, graças a Selminha que tem uma paciência de anjo. Na sua ausência - pois que o seu trabalho consome uma metade do dia - sou eu que preparo o almoço, deixo tudo arrumadinho em casa, e parto para a escola onde desempenho minha função de professora há quinze anos. Se um dia Selminha me faltar também, ao menos eu saberei me virar perfeitamente.
Esse breve pensamento me veio justamente hoje, no dia de natal, enquanto fazíamos as compras. Paramos em frente a uma prateleira de vinhos, e de pronto acordo, escolhemos juntas um Barolo Safra 90, recomendado por mim. Esta minha afeição por vinhos, atribuo ao gosto pela vida. A vida é como um bom vinho, deve-se degustar milimetricamente.
Ao sairmos do supermercado, passamos numa locadora e escolhemos também um filmizinho para nos distrair, pois que ficar na frente da TV assistindo o especial do Roberto Carlos, ou todos esses programas insuportáveis que passam na noite de natal, não condiz com nossa espiritualidade e bom senso natalino. Nesse ponto, eu e Selminha combinamos tão bem.
Em casa, sozinhas e ao som de “L´amour Est Bleu” do Paul Muriat, e outras cançõeszinhas francesas que adoro ouvir, fomos pra cozinha e botamos a mão na massa. Selminha, além das rabanadas, ensinou-me também a fazer uma deliciosa torta de morango, salpicão, saladinha fria, e um simples e delicioso sorvete de cupuaçu. À noite, montei-me direitinho, estreando um vestidinho azul meia taça e um saltinho preto. Selminha também estava linda com um vestidinho preto bem justo, que juntas havíamos escolhido para aquela noite. Não esperamos o relógio anunciar meia noite para darmos inicio a nossa pequena celebração particular, como reza a tradição, de modo que nos servimos do vinho e o fomos degustando devagar, enquanto assistíamos um clássico do Fritz Lang chamado “O Diabo Feito Mulher”. Marlene Dietrich estava impecável e sedutora nesse filme. Acho que bem mais que o “Anjo Azul.” Morro de amores por Marlene Dietrich. Na outra encarnação, virei pecadoramente linda, como Marlene Dietrich.
Depois, fui até a varanda com meu copo de vinho, e vi a cidade lá embaixo piscando suas luzes natalinas. As ruas desertas e frias. Os vizinhos aos arredores já haviam partido para a casa de seus familiares, de maneira que me pus livremente na sacada a desfilar para lá e para cá. Alguns fogos já começavam a explodir timidamente nos céus da minha cidade. Eu via suas luzes e sua tristeza. Sua alegria e sua ausência. Minha cidade ás vezes me parece assim: alegre e triste. Presente e ausente. Tudo ao mesmo tempo. Ela reflete o que eu sou. Ih, acho que é o vinho ou a música invisível que ouço tocar agora bem lá dentro de mim. Uma música doce e triste de natal. Selminha aproximou-se, pegou-me pela cintura e começamos a dançar a tal música invisível na sacada. Os fogos explodiam afoitos cada vez mais acima de nós, colorindo todo o céu. Senti falta da minha mãe. Era o meu primeiro natal sem ela. Sem o aconchego de seu útero materno. Encostei docemente minha face na face de Selminha e perguntei a ela se um dia teria coragem de me deixar e viver sua vida longe de mim. Ela não me respondeu. Eu em seu lugar também não saberia responder. A verdade é que 2009 estava se acabando, e 2009 foi sem dúvida um ano de decisões e revelações, em que eu finalmente tive a coragem de assumir o que eu sou para ser feliz de verdade...
Manaus 28/12/2009

domingo, 20 de dezembro de 2009

A TATUAGEM


Só agora, aos trinta e poucos anos, depois da morte de minha mãe, é que decidi usar uma tatuagem. Sempre fui louca por tatuagens, e sentia imensa inveja quando eu via amigas e colegas meus, tatuados. Só que nunca pude usar por respeito aos meus pais – mas precisamente por minha mãe que nunca aprovou a idéia. “Coisa de vagabundo, meu filho!” Era o que ela alegava, e eu, é claro, acatava por respeito a ela. Mesmo depois de estar trabalhando, de ter assumido de certa maneira minha independência financeira, nunca pude usar, sequer mencionar a idéia de vir um dia usar uma tatuagem. Era o mesmo que dizer a ela que um dia possuiria uma moto. Era o mesmo que matá-la por dentro. E vê-la sofrer, era tudo que eu menos queria. Por isso, respeitei a sua decisão, até este ano, quando ela veio a falecer em 22 de setembro. Não vou mentir que me sinto hoje, depois de seu desaparecimento, absolutamente feliz e livre. Nunca se é feliz quando se perde alguém que se ama profundamente. Tampouco se é livre, pois que liberdade, segundo o filósofo Sartre, não existe. Mas me permito realizar conscientemente, as coisas que sempre quis fazer. Como por exemplo, usar finalmente uma tatuagem. E foi isso que fiz, além de assumir meu lado feminino. A moto, ainda não sei, quem sabe um dia...
A sensação provocada pelas agulhinhas mergulhando na tua carne, é uma sensação gostosa, embora dolorida. Uma dorzinha que se prolongou por meia hora, o tempo que durou o trabalho. Nesse intervalo, para me distrair e esquecer um pouco a dorzinha incômoda, tentei conversar com o tatuador, um moreno bem simpático, porém, fechado e econômico nas palavras. O que tornou nossa conversa um tanto trivial, monologada, mas que de certa maneira, ajudou o tempo passar rápido e superar as dorzinhas inconvenientes da agulha. Finalmente olhei no espelho e vi em minhas costas, a figura de uma linda borboleta sobrevoando a inicial do meu nome “M”. Foi o desenho que escolhi. Nada chamativo, monumental, mas algo bem discreto e sensível, como essa garota o é.
Saí do estúdio saltitante e feliz, debaixo de uma chuvinha fina e alegre de dezembro. Tornara-me uma criança tola que acabara de ganhar um doce ou um brinquedo novo. Mas era uma tatuagem que eu havia finalmente decidido usar: minha primeira tatuagem. Uma experiência nova que estou certa que nunca vou esquecer...


Manaus 18 de setembro de 2009

sábado, 19 de dezembro de 2009

OUTRA DICA DA MINHA VIDEOTECA


A ROSA PÚRPURA DO CAIRO – Woody Allen

Um outro filme que indico, é a Rosa Púrpura do Cairo, do cineasta Woody Allen.
Um filme surrealista e romântico que conta a história de um personagem que sai das telas de cinema e arrebata o coração de uma mulher que naquele momento assiste ao filme.
A Rosa Púrpura do Cairo rompe com as convenções cinematográficas e cria uma fabula mágica e romântica.
Um filme engraçado e com toda certeza vai arrancar lágrimas de quem o assistir.

É isso aí!!


BEIJOS!!!

DICAS DA MINHA VIDEOTECA




O PROCESSO DE JOANA D´ARC (Robert Bresson)

Bresson, um dos contemporâneos do Passolini e de outros cineastas docemente malditos, foi um desses diretores que adoravam mexer nas feridas abertas da Igreja. O filme “O Processo de Joana D´arc”, é uma de suas obras primas, onde reconstitui com brilhantismo, a prisão, o julgamento e a execução de Joana D´arc, baseando-se nos autos do processo.
O filme é sintético, estranho, diferente, onde o que prevalece são as imagens e a rica linguagem dos personagens. É um filme que mexe com você e o faz refletir acerca das muitas injustiças que a Igreja cometeu contra o ser humano. Um filme cabeça e que vale à pena assistir.

CROSSDRESSERS NAS NOVELAS


Cada vez mais o universo crossdressers vem ganhando espaço nas telinhas da TV, especialmente nas novelas do plim plim ou de outros canais também. O exemplo mais recente é na novela “Caras e Bocas”, e em uma outra novela da Record, cujo nome não me recordo agora. Mas, enfim, o surgimento desses personagens, entre aspas, nas teledramaturgias brasileiras, não vem de hoje, é claro. Uma outra novela - não muita antiga - chamada “Chocolate com Pimenta”, já tinha abordado este tema. Não o universo crossdresser em sua essência, como fazem até hoje essas novelas atuais, mas meros homens travestido de mulher, tentando escapar de alguma situação comprometedora, ou então tentando aproximar-se de alguma mulher com o objetivo de conquistá-la. Como é o exemplo dessas duas novelas que citei no inicio e que venho acompanhando esporadicamente. No caso da novela “Chocolate com Pimenta”, o crossdresser adolescente ali protagonizado, tentava fugir de uma condição feminina que lhe foi imposta desde pequeno. Outro requisito básico ao se retratar o universo crossdresser.
Em outras ocasiões também ocorridas nas novelinhas ou seriados do plim plim, e que eu tive o desprazer de ver e acompanhar, foram crossdressers fazendo pequenos papéis onde eram ridicularizados ou tratados com ironia. Em síntese, o crossdresser ainda não foi tratado com seriedade e respeito nas teledramaturgias brasileiras. Ainda não houve uma novela, seriado ou filme que abordasse com relevância este tema. Penso eu que tampouco isso venha ocorrer, pois que este tema, tratado como deveria ser, causaria muita polêmica e ranger de dentes, como aconteceu quando o homossexualismo foi abordado a primeira vez na televisão. Hoje, algo trivial e corriqueiro. Aparentemente aceitável pela sociedade. Mas um homem travestido de mulher, assumindo sua condição feminina, e vivendo livremente numa sociedade, ainda é, ao meu ver, um assunto longe de ser abordado.
Dentro ou fora das telas, o crossdresser, o travesti, o homossexual, etc, ainda é encarado como um pária da sociedade; um ser promíscuo, libertino, alienado. Um viadinho sem vergonha, é assim como somos vistos, e não adianta dizer que não; que há uma certa tolerância das pessoas com as quais convivemos cotidianamente. Elas podem até não se meter na tua vida, criticar de imediato a tua conduta e a tua escolha, mas por trás estão te condenando, te crucificando, rindo de você. Essas mesmas pessoas que vão á Igreja nos domingos, que tem o mesmo nível intelectual que o seu, emprego, família, enfim, uma vida relativamente saudável e decente.
Outro dia, conversando com um velho amigo dos tempos de faculdade, hoje professor de filosofia na escola onde trabalho, surpreendi-me com um infeliz comentário seu em que ele dizia que o homossexualismo é uma praga e que essa raça deveria desaparecer do planeta. Cogitei nervosamente que tratava-se de uma brincadeira, mas ele foi taxativo em repetir o que havia afirmado. Nem procurei saber o porquê, seria perda de tempo. Deixe-o sozinho à mesa e fui juntar-se com outros conhecidos meus. São essas coisas que me entristecem, sabe. Não quero aqui levantar alguma bandeira que já foi levantada. Mas queria na verdade que bem lá no fundo, as pessoas se conscientizassem que o homossexualismo não é alguma praga. Um pecado ou disfunção da sexualidade como alguns especialistas afirmam. Mas uma escolha. Uma opção de vida.
O crossdresser é só mais um novo ramo que surge do interior de uma grande árvore. Trocando em miúdos, uma categoria nova da prática homossexual. Mas, calma, é bom deixar claro que todo crossdresser não é necessariamente homossexual. Uma boa parte apenas se transveste de mulher para alimentar um fetiche particular. Outros encaram a coisa com mais profundidade, assumindo uma essência feminina 24 horas, como é o meu caso em que carrego inteiramente dentro de mim, uma alma feminina e adoro me relacionar amorosamente com homens.
O universo crossdressers não é um universo complexo como se acredita ser. É um mundo maravilhoso. Vai de cada um entender-se por dentro e saber o que exatamente busca. Acho que está a na hora das novelinhas globais ou não, deixaram de usar essas falsas maquiagens e falsos blushes ao retratarem o crossdresser, e começassem a abordar este tema com mais respeito e dignidade. Já que mexeram no formigueiro equivocadamente...


Manaus, 19 de dezembro de 2009

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

DICAS DA MARCINHA PARA UMA BOA E PRAZEROSA LEITURA


“Perto do Coração Selvagem” – Clarice Lispector (1925-1977)

“Perto do Coração Selvagem” é o livro de estréia dessa escritora maravilhosa. Ela o escreveu quanto tinha dezoito pra dezenove anos de idade.
A escrita de Clarice Lispector é uma escrita introspectiva. Situa-se numa confluências de paradigmas em que a narradora nos envolve e nos põe em tensão com seus personagens e tramas, do inicio ao fim. Penso que, depois de Jane Austen, (escritora americana do século XVII autora dos livros “Razão e Sensibilidade” e “Orgulho e Preconceito) , nenhuma outra escritora descreveu com tanta maestria e lirismo as angustias, os anseios, as alegrias e tristezas que habitam no interior feminino. Ler Clarice é se ler interiormente. É se descobrir por dentro. Daí a razão do livro assumir tanta importância assim.

Outro escritor que conhece bem a alma feminina e a enaltece com todo seu vigor lírico, é o escritor Uruguaio Eduardo Galeano. “Mulheres” é um livro cheio de breves narrativas históricas e heróicas protagonizadas somente por mulheres que sofreram opressão e exploração na América Latina. O livro é uma doce homenagem às mulheres célebres e anônimas que compartilharam o dia-a-dia de nossa história.

“Trecho do livro Perto do Coração Selvagem

(...) “Novamente, no meio do raciocínio inútil, veio-lhe um cansaço, um sentimento de queda. Orar, orar. Ajoelhar-se diante de Deus e pedir. O quê? A absolvição? Uma palavra tão larga, tão cheia de sentidos. Não era culpada – ou era, de quê? Sabia que sim, porém, continuou com o pensamento – não era culpada, mas como gostaria de receber a absolvição. Sobre a testa, o dedo largo e gordo de Deus, abençoando-a como um bom pai, um pai feito de terra e de mundo, contendo tudo, tudo, sem deixar de possuir sem uma partícula sequer que mais tarde pudesse lhe dizer: sim, mas eu não lhe perdoei Cessaria então aquela acusação muda que todas as coisas aconchegavam contra ela...



“Tracey Hill era menina num povoado de Connecticut, e se divertia com diversões próprias de sua idade, como qualquer outro doce anjinho de Deus no estado de Connecticut ou em qualquer outro lugar deste planeta.
Um dia, junto a seus companheiros de escola, Tracey se pôs a atirar fósfotos acesos num formigueiro. Todos desfrutaram daquele sadio entretenimento infantil; Tracey, porém, ficou impressionada com uma coisa que os outros não viram, ou fizeram como se não vissem, mas que a deixou paralisada e deixou nela, para sempre, um sinal na memória: frente ao fogo, frente ao perigo, as formigas separavam-se em casais e assim de duas em duas, bem juntinhas, esperavam a morte.
Do livro “Mulheres” (Eduardo Galeano)

Essa é a minha dica. Uma boa leitura A todos!!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

UM DIA NA VIDA DESSA MENINA


Levanto-me cedo para um novo Amanhã. Docemente viva. Pulsante. A cada expectativa de um novo dia na vida dessa mulher, faz-lhe vibrar o corpo todo, como se milhões de agulhas coloridas de cristal penetrasse-lhe amorosamente o âmago das coisas mais secretas e indivisíveis de seu mais profundo intimo. Radiante e feliz, abro as janelas da vida. Janelas que dão vista para o centro de minha cidade. Moro bem no centro da cidade. No centro de tudo. Até de mim mesma. Por esta razão, considero-me um elemento nevrálgico. Vibrante. Viva. AHH, ESTE DIA; esta manhã de novembro infinitamente doce e bela insinuando-se lá fora como uma amante foguenta e leviana. Uma densa e úmida névoa – muito comum nessa época de ano – cobre prédios, casas, pontes e gentes, comunicando-me através de seu mistério, um dia relativamente agradável; um convite, portanto, a uma boa caminhada. A uma aventura. Essa mulher não cessa de buscar. O amor está lá fora. Em algum lugar escondidinho sob a densa névoa. Espreguiço-me como uma gata sonolenta. Uma brisa marota vem acariciar-me as finas vestes de dormir. Não, definitivamente não ficarei em casa reclusa. Refém de meus devaneios mais secretos de mulher. Não foi dessa maneira que planejei minhas férias. A esta altura, sozinha em casa. Selminha saíra logo cedo para o trabalho, espalhando pelos cômodos, o aroma inebriante e inconfundível do seu perfume. Num estalar de dedos, resolvo sair. Livro-me, portanto, das vestes delicadas de dormir e caminho deliciosamente nua em direção ao banheiro para um longo e delicioso banho de todas as manhãs. Ligo o chuveiro e me permito deliciar com o toque morno e suave da água precipitando-se sobre meus ombros, nuca, costas, ancas, coxas, pernas, o corpo todo, provocando-me sucessivas pulsações elétricas de intenso prazer, como, se, DEIXA EU EXPLICAR, estabelecesse entre mim e a água, uma simbiose orgasmal. Penso que se todos os HOMENS espalhados nesse planeta possuíssem a ternura e o toque mágico deste elemento químico FISICO-CORPÓREO, o mundo seria menos bruto e egoísta. Ahh, eu e meus delírios tolos. Seguimos, portanto.
Ganho finalmente o frescor das ruas. Sinto-me alegre e feliz. E bonita também. E com febre também. A febre é por conta de minha natureza ultra-romântica. Enquanto caminho, sinto o bafejar frio e delicado da brisa em meu rosto. Sou tomada de intensa felicidade nesse dia. As pessoas me olham passar e eu sinto o sorriso delas. A alegria delas. A alegria viva e pulsante da vida. Deus criou o mundo de batom e salto alto. Espalhou sobre o mundo toda sua alegria e toda sua feminilidade. Fez um dia simples como este. Por isso ás vezes não consigo entender como os seres humanos tornam este mundo tão complicado de viver. Não entendo as guerras, a violência, o preconceito, o egoísmo, as diferenças sociais e até mesmo as discussões mais triviais que sempre cambaleiam para as tragédias. Tudo me foge a compreensão. Como por exemplo agora, em que caminho reflexiva pelas ruas de minha cidade, vendo os enfeites natalinos enfeitando prédios, praças, lojas e casas; as pessoas fazendo suas compras de natal. Toda essa harmonia em volta só porque se aproxima esta data? Por que não haver toda essa confraternização em outras datas também? Toda essa mesquinhez e disfarçatez dessas pessoas nessa época de ano me faz um certo mal. Talvez por sempre ter olhado as coisas por uma outra matiz. Mas é um dia belo e agradável e não permito o tristicídio. Sorrio e caminho. Tolice é querer mudar o fluxo das coisas. Longe de mim tal pretensão.
Entro agora em uma confeitaria que fica de esquina e peço um café bem quente com pãezinhos de queijo. Adoro paeszinhos de queijo. A vida bem que podia ser simples como paeszinhos de queijo. Olho discretamente as pessoas que tranquilamente tomam seu café da manhã. É a primeira vez que – inteiramente montada, Márcia adentra este recinto. Ninguém nota a diferença. Nem a própria dona do estabelecimento. O que me deixa mais tranqüila e mais á vontade. Aos poucos sinto que vai se dissipando dento mim, todo o meu temor e insegurança de me revelar em público, como mulher. Antes calculava cada ângulo dos meus passos: os lugares onde devia ir, por onde andar, em que banco sentar, a hora de entrar e sair dos lugares. Não vou dizer que mudou muita coisa. Ainda sou deveras precavida em se tratando de alguns lugares onde não me atrevo freqüentar. Sei que não devo nada a ninguém. Não estou matando e nem roubando. Só estou assumindo uma outra condição de vida e estou certo de ser feliz assim. Mas há ainda há receios e temores, não vou negar. Apesar de todo o apoio da companheira Selma e da minha firmeza e coragem em me assumir publicamente, ainda me sinto sozinha e fragilizada. As coisas não são tão simples e aceitáveis quanto parecem ser. A sociedade é hostil. As pessoas são falsas e hostis quando se trata diretamente de situações como essa. Mas sorvo tranquilamente meu café e vou pagando pra ver. Vou girando a roleta ao contrário. Subindo este rio ao invés de descer.
Enfim, alguém me notou. Uma garotinha de tranças sentada junto à mãe – duas mesas frente à minha. Ela me olha com certa curiosidade. Calculo que tenha uns cinco ou seis anos. Me olha curiosa. Os cenhozinhos dela franzidos. Parece não entender muito. Pisco para ela e ela automaticamente olha para mãe buscando uma explicação materna. A mãe sussurra-lhe alguma coisa no ouvido. Uma cena estranha e engraçada. Talvez tudo isso seja fruto de minha imaginação. Mas a mãe agora olha para mim e é um olhar que decifro muito bem. Desvio os olhos olhando pela vidraça a neblina que parece se dissipar. Fico assim olhando para o branco lá fora. Volto à realidade. Mãe e filha deixam o lugar, e um casal de idosos tomam assento e conversam entre si. Uma conversa sem pressa; com algumas lacunas de reflexão. Com a partida da garotinha e de sua mãe, me sinto agora invisível aos olhos dos outros. Termino meu café e peço um suco de goiaba. Enrolo com o suco e nem vejo o tempo passar. Olhando agora para os velhos á mesa, penso na ternura do tempo: o templo implacável e doce. Ontem eu tinha 25 anos, hoje tenho trinta e cinco, amanhã terei quarenta, depois de amanhã quarenta e cinco. Dentro em breve estarei velho. Estarei só ou acompanhada de alguém; feliz ou infeliz, tomando um café nesta mesma esquina ou em qualquer outro lugar. Ou posso já estar morta. Fecho meus olhos e tento imaginar a minha amarga ou doce velhice. O futuro é uma incógnita. O medo das coisas futuras me apavora. Por isso é que se deve aperfeiçoar o presente. Vivermos em harmonia com nós e com os outros.
O tempo. A mocidade. A velhice. A vida. A brisa fria me sopra outra vez carinhosamente o rosto. Mexe com as franjinhas de minha peruca. Pago o café e deixo enfim, a confeitaria. São nove horas da manhã de uma sexta feira. Vou a esmo pelo centro de minha cidade. Olho para o alto. A névoa vai se desfazendo e revelando a face de um sol maroto que maliciosamente me sorri. Misturo-me à multidão. Rostos anônimos. Vidas secretas se esbarrando. Destinos que se cruzam. Corpos que se fundem. Olho as vitrines das lojas, entro em algumas delas, avalio o preço das coisas; arranco risinhos furtivos das atendentes quando faço ressalva ás minhas economias, “Prometo voltar um outro dia tá, bom?” E sigo. Ouço assobios e leves cantadas. Um vendedor ambulante mais afoito resvala sua mão na minha. Um passante me cumprimenta baixinho: “Bom dia, gata!” Sorrio de tudo.

São ainda nove horas da manhã. É o relógio da Matriz que alegre anuncia: mas um dia na vida dessa menina...

Manaus, 14/12/2009

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O ENCONTRO - FINAL

Impaciente com a minha demora, Walmir já havia me ligado umas dez vezes para saber de minha chegada. Tentei acalmá-lo dizendo-lhe que já estava a caminho. E eu de fato já estava à caminho. Selminha, ao meu lado, emcoraja-me os passos indecisos. Ao chegarmos a rua Quintino, avistamos de cara um letreiro neon assinalando que ali era o Hotel Natália. Nos despedimos. Selminha tomou seu rumo, e eu, parada á porta daquele hotel, passei a me sentir como uma verdadeira puta à DELIVERI. Respirei fundo, e adentrei o recinto caminhando até a recepção:
"Boa noite! Um amigo me aguarda no 203." A recepcionista olhou-me com certa naturalidade, talvez supondo que eu fosse de fato uma mulher, o que me deixou mais á vontade, e apontou a direção do quarto que ficava nos fundos do corredor. Duas batidinhas de leve na porta e ela logo entreabriu-se, surgindo do outro lado, um sujeito bem mais baixo que eu, de cor ligeiramente parda, olhos miúdos e inexpressivos, cabelos curtos e um bigodinho engraçado ornamentado-lhe os lábios sem cor. Sem dúvida, um sujeito desprovido dos parâmetros da beleza. Mas o que é a beleza senão um encanto efêmero e ludibrioso? E Márcia (volto a repetir), por possuir umas das muitas virtudes presentes na natureza feminina, não ligou muito para as qualidades físicas presentes no sujeito e resolveu entrar, sorrindo-lhe de leve. O quarto era excessivamente pequeno e penumbroso, iluminado apenas por uma luz fosca que vinha da televisão ligada, onde e claro, rolava um filme de sexo.
"Poxa, que demora hein? Pensei que não vinha mais." Disse ele sentando-se em posição de lótus no centro de uma cama pequena posicionada no centro do quarto. Segurou-me um instante uma das minhas mãos, convidando-me a sentar. Já acomodada, corri meus olhos pela extensão do lugar questionando-me o por que da escolha de um quarto tão pequeno e desconfortante? Um quarto para as coisas práticas do sexo. Não havia sequer um frigobar ou um banheiro decente.
"O que foi Márcia? Pensativa..."
"Não, tudo bem." Sorri-lhe novamente despositando minha bolsa sobre o criado mudo. Ele se chegou mais perto e afastou-me a peruca para o lado, tocando-me grosseiramente a altura do ombro. Relevei aquele toque. Parecia mais excitado do que feliz ao me ver. Foi a impressão que tive. Seu sorriso ia de um canto a outro da boca pequena. Seus olhos miúdos e desinteressantes continham lá no fundo um brilho de satisfação de um animalzinho afoito. Quanto a mim, sentia-me como se estivesse cometendo algum delito. Delito não por representar uma puta, pois que não tenho nada contra elas - quero deixar claro, mas por estar na companhia de um homem casado e que certamente só me queria por algumas horas para alimentar seu fetiche e saciar sua sede de sexo. E sexo não é o que buscava nesse primeiro instante. Mas o que eu buscava então? Apertava-me com mais força os ombros enquanto eu olhava agora para uma coluna de gesso que entrecortava verticalmente o pequeno quarto. O que aquela coluna estaria fazendo ali?Uma pergunta boba e típica de uma mulher tentando fugir de questionamentos mais profundos e relevantes daquele momento. Gemidos de prazer e morte vinham da televisão. O ronco gutural e perturbador do aparelho de ar me feria os ouvidos. E aquele sujeito baixando a alcinha de minha blusa sem nenhum cuidado aparente. "Relaxa, gostosa!" Dizia-me. Seus dedos agora buscando o caminho dos meus seios. Sua outra mão, a direita, eu supunha - mas que diferença faz, descia afoita em direção as minhas coxas expostas. Definitivamente eu não o queria. Não daquela forma abrupta. "Voce é muito gostosa! Do jeito que eu imaginava!" Se ao menos ele repetisse aqueles gestos literarios que prazerosamente eu os lia na minha caixa de mensagens. Ou até mesmo suas confissões gentis e prenhes de carinho que ouvia pelo telefone. Mas, "relaxa gostosa?" me soava fria e animalesca. Afastei bruscamente suas mãos e me levantei caminhando até o banheiro. Ele permaneceu na cama, acariciando o próprio pênis, como um bichinho estúpido. No banheiro, me detive olhando-me na profundidade do espelho. Não me veio nada a mente, apenas uma súbita vontade de deixar aquele quarto. Foi quando sua pequena e insignificante sombra, assomou a porta do banheiro e caminhou em minha direção, enlaçando-me por trás a cintura. Fiquei em silêncio, na esperança de que ele se reconciliasse com seu doce cavaheirismo e assim, salvar o barco que naufragava. Mas tudo que me disse, foi um "Fugindo de mim, gostosa? Não está gostando do encontro?" Não sei porque não gostava do termo "gostosa" usado por ele. Se ao menos trocasse por um outro, tal como, princesa, querida, amor... Ou talvez eu estivesse mesmo exigindo muito daquele homem e daquele encontro, ou talvez Márcia ainda precissasse saber mais um pouco sobre a vida. Afinal, ela estava apenas no início. O sol ainda, uma auréola de espinhos.
Arrastou-me de volta a cama e fez-me sentar nela. Começou dessa vez a beijar-me com sofreguidão o pescoço. Suas duas mãos trabalhavam sobre minhas coxas, febrilmente, tentando abri-las á força. Nenhuma palavra doce ouvia de sua boca. Só um vapor quente, morno, que dela exalava. Percebendo a inutilidade de seu esforço, desistiu e olhou muito sério para mim.
"Porra, Márcia! O que tá havendo? Só temos meia hora pra curtir, e tudo graças a tua demora em chegar. Sabes da minha condição; que não posso ficar muito tempo aqui!" Olhei dessa vez dentro daqueles olhos pequenos e negros e disse-lhe: "E será que voce esqueceu do acordo que fizemos?"
"Que acordo foi esse, Márcia?"
"Nada de sexo no primeiro encontro."
"Que merda, Márcia! Quer da uma de santinha agora, é?" Senti um engasgo. Um amargo. Um vazio. "Não, não é isso..."
"Então o que rola?" Inutil explicar-lhe. Ele não entenderia mesmo. Por isso calei. Tentou beijar-me á força novamente, e mais uma vez fugi de seu implacável assedio de animalzinho afoito, empurrando-o para longe. Apanhei minha bolsa sobre criado mudo e pus-me de pé com a mão na maçaneta. Deitado sobre a cama, o sujeitinho ridiculo olhava sério para mim. "Então é assim? Eu me arrisco vindo até aqui para este encontro que enrrolastes durante dois meses, para nada? Quem voce pensa que engana, menina, representando a santinha? Tu és uma puta! és e serás sempre uma puta!"
Suas palavras soaram como rios de gillette garganta abaixo. Não fiquei ali para ouvir mais nada. Abri a porta e o deixei falando sozinho no quarto. Atravessei o corredor do hotel contendo um filete de lágrima que brotou do canto de meu olho esquerdo. Deixei o Hotel Natália e ganhei a rua escura e úmida da avenida principal. Ainda ouvia o eco de sua voz dizendo: "Quem voce pensa que engana, Márcia? Serás sempre uma puta!". Novamente um engasgo. Um amargo. Um vazio. Caminhei perdida pela cidade traçando um rumo ignorado. Fui parar acidentalmente na Igreja Matriz, onde havia uma quermesse acontecendo. Queria estar no meio das pessoas para dissipar os ecos da minha cabeça. Numa barraca de pescaria, tentei ligar para Selminha, e nada. Estava fora de área. Deixei a quermesse e me dirigi ao porto hidroviário que ficava algumas quadras dali. O lugar estava bastante animado, com quase todas as mesas ocupadas. Escolhi uma mesa solitária. Na serena e doce luz dos abajures do porto, bem defronte do rio que agora soprava sua doce e fresca brisa em meu rosto, optei por uma bebida leve. E me deixei ficar ali meditativa, olhando os barcos e navios que atracavam no porto. Isso demorou, creio eu, duas longas horas, tempo suficiente para que todos os meus temores e dúvidas acerca de mim mesma se dissipassem e eu voltasse a ser aquela mulher segura, forte, feliz e convicta que eu era. A vida, pressumo eu, é cheia de degraus em que sempre se precisa manter o equilibrio dos saltos para não desabar. E se desabar, tornar a eguer-se de novo: ereta, altiva.
Um homem, na mesa ao lado olhou-me e sorriu. Aquilo talvez fosse um discreto convite. Retribuí com um sorriso, mas fiquei onde estava. Precisava estar só comigo mesma. Reiventando-me. Recriando-me.
Ai o telefone tocou. Era Selminha...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O ENCONTRO II

No dia que antecedeu o tal encontro, avaliei e reavaliei sob diversos ângulos, a possibilidade de vir a me tornar uma amante, o que de repente, me valeria como experiencia, e que talvez não fosse tão ilícito assim. Mas isso, é claro, dependeria e muito de meu futuro e pretenso amante. Pois que no fundo, não nasci para ser a outra. Nasci para ser valorizada e amada em primeira estância.
Levei a questão á companheira Selma, quando tomávamos juntas um cafezinho numa das muitas confeitarias espalhadas da avenida Sete de Setembro. Contei-lhe de meu pequeno drama e da idéia de desistir do encontro, no que ela encorajou-me a não desistir. Que eu fosse, sim, ao encontro; que tudo de repente poderia resultar numa aventura doce e prazerosa. Longe de mim agora, envolta em brumas leves de pensamentos ardis, misturadas à fumaça do delicioso café que me embassava de leve os óculos, cogitei definitivamente na hípotese de que tudo correria bem, e que estava cozendo um bicho de sete cabeças dentro de mim.
No dia seguinte, resoluta, fui ao encontro dele. Selma ajudou-me nos preparos de minha montagem, escolhendo uma roupinha bem sensual que consistia em uma blusinha de tecido fino, de alcinha, um shortinho jeans, não muito colado ao corpo, os saltos altos, vermelhos e sedutores, minha inseparável peruquinha morena-ruiva que assentava-me tão bem à cabeça, moldando-me o rosto moreno e redondo, as unhas bem feitas e esmaltadas, e alguns acessórios de praxe, como minhas pulseiras coloridas, e um discreto cordãozinho em volta do pescoço que um dia escolhemos juntas numa bijuteria. Pronto! Estava ao meu ver, diante do espelho, pecadoramente linda e sensual para o encontro com o sujeito cujo rosto eu nunca vira, e que só ali então, me dera conta disso. O que para mim não faria nenhuma diferença. O essencial é que ele mantivesse os galanteios tão bem traduzidos em formas de palavras que eu sorvia saborosamente ao checar as as suas postagens. Mas ainda sim, havia o fato dele ser casado, o que me causava extremo desânimo, fazendo-me reter os passos, tomada que era de dúvidas e receios quando me dirigia ao Hotel Natália, onde ele já me esperava. Pois que aventuras assim - por mais que nunca as tivesse vivenciado - são efêmeras e quase sempre resultam em profundas feridas incicatrizantes no corpo e na alma. Ainda sim, arrisquei. A vida não é correr riscos? Jogar com o invisível? Ceder aos impulsos dominadores da razão e dos sentimentos? Então eu fui. Firme e resoluta; naquela tarde nublada e agradável de novembro, ao enocntro de meu futuro amante...
continua...

O ENCONTRO I

Há mais ou menos dois meses atrás, conheci um sujeito na internet chamado Walmir. Desde então vinha mantendo clom ele uma amizade virtual.
Ao longo desses dois meses, ele vivia insistindo em me conhecer, alegando ter se apaixonado perdidamente pelas fotos sensuais que eu havia postado em meu orkut, além do que, ter se sentido seduzido pela voz e pelo papo agradável quando da primeira vez falamos ao telefone por horas. Sua infantil insistencia em me conhecer, redobrava á medida em que íamos avançando em nossas intimidades, e com isso estreitando cada vez mais o nosso enlace virtual. Ainda sim, Márcia, por se tratar de uma pessoa reservada e cautelosa nas suas ações, não cedeu ás suas exigencias de promover logo um encontro. Por isso, que que fui adiando o máximo o encontro, apesar (e não nego) de me sentir também atraída e seduzida por suas insistentes cantadas em formas de mensagens e depoimentos gentis e encantadores que todos os dias eram postados por ele em minha caixa de mensagens. Sem mencionar, é claro, as confissões doces que me falava ao telefone. "Não vejo a hora de lhe lhe conhecer e de envolver-lhe todinha em meus braços. As fibras desse meu querer ardem de infinito desejo..." Apesar dos clichês, estava indubitavelmente diante de um poeta.
Nesse interim, porém, esperta e precavida como tenho sido sempre, fui arrancando dele as confissões mais secretas, tais como o fato dele ser casado. Custei-lhe a arrancar tal confissão, o que de fato me decepcionou sobremaneira. Posto que não costumo envolver-me com homens casados. Não faz parte da índole e da filosofia de vida dessa garota. Todavia, talvez por uma questão de educação e principios, me permiti a continuar aceitando amavelmente seus elogios e suas mensagens dotadas de ternura e esperanças em me ter para ele. Portanto, continuei com o jogo, mantendo de pé o tal encontro. Porém, deixei bem claro, uma claúsula: não haveria sexo no primeiro encontro. O que obviamente gerou alguns protestos seus, mas que no final, acabou resultando na sua aceitação. Afinal, ele ia me conhecer, e por conta disso, estava deveras feliz, como bem demonstrou em suas ultimas mensagens. Ao contrário de mim, que ja não sentia o mesmo entusiasmo do inicio, cuja razão, não precio mencionar duas vezes.
Finalmente, quando entrei de férias do trabalho e de mim mesma, resolvi eu mesma marcar o encontro que ocorreu no final de uma tarde nublada de segunda feira do mês de novembro...
continua...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A AUTORIDADE

Em épocas remotas, as mulheres se sentavam na proa das canoas e os homens na popa. As mulheres caçavam e pescavam. Elas saíam das aldeias e voltavam quando podiam ou queriam. Os homens montavam as choças, preparavam a comida, mantinham acesas as fogueiras contra o frio, cuidavam dos filhos e curtiam as peles de abrigo.
Assim era a vida entre os indios onas e os yaganes, na Terra do Fogo, até que um dia os homens mataram todas as mulheres e puseram as máscaras que as mulheres tinham inventado para aterrorizá-los.
Somente as meninas recém-nascidas se salvaram do extermínio. Enquanto elas cresciam, os assassinos lhes diziam e repetiam que servir aos homens era seu destino. Elas acreditaram. Também acreditaram suas filhas e as filhas de suas filhas...

do livro: Mulheres (Eduardo Galeano)
meu escritor predileto.

SOU ESTA FLOR QUE SE ABRE AGORA PRO MUNDO.

Há um mês atrás, confessei a companheira de minha condição. Foi uma conversa longa, delicada, mas que ela aceitou carinhosamente. Desde então, vivemos em plena harmonia; tendo ela me ajudado e me apoiado até aqui nessa minha transformação.
Ontem passamos juntas, uma tarde muito agradável. Fomos as compras, e mais tarde tomarmos uns chopes no cais da cidade, onde apreciamos um belo entardecer, trocamos confidencias, segredos, juras, e também paqueremos um bocado; por fim, rimos de toda essa situação inusitada que acabou nos envolvendo e nos tornando mais amigas e mais próximas. O que me faz refletir acerca de como os casais poderiam viver mais felizes se as relações se dessem dessa maneira: sem os tabus, sem os grilhões da moral, da religiosidade e da sociedade que teima em nos punir.
Márcia - a mulher que habita agora em mim - tem me ensinado isso; educou meus sentimentos e ensinou-me a olhar o mundo e as pessoas com mais ternura. Também ensinou-me a descobrir-se e amar-se infinitesimamente, partícula por partícula. Não é nenhuma heroína. Só alguem mais humana.
Vivo agora dentro da medida do que sou: livre, leve, solta. Extraordinariamente bela e feminina.
Sou esta flor que se abre agora pro mundo.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A NOITE

Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha alma.
(Eduardo Galeano. do livro: "Mulheres")

A LUA TEM DUAS NOITES DE IDADE

Potencialmente, este homem falho que existiu em mim ao longo de seus trinta anos, está decretamente morto. A existencia de Marcia, esta mulher do meu interior e que me visita ocasionalmente em periodos longos e curtos, é um fato que não se revoga. Dois corpos não habitam o mesmo espaço da matéria, e isto é um outro fato irrevogável. Portanto, o processo de transformação a que dei inicio, está em curso, e se tudo correr bem essa mulher se firmará para sempre em minha vida, enterrando de vez o homem falho e exterior que representei até aqui.
Fingir que Marcia não existe; que tudo supostamente não passa de uma disfunção de minha sexualidade, é um grande equivoco. Se faz necessário que ELA exista para o meu bem estar fisiológico e espiritual. Marcia me faz feliz e me rejuvenesce. Agrilhoá-la ou confiná-la à obscuridade de meu mais secreto alçapão interior, seria o mesmo que matá-la, e matando-a, estaria matando a mim mesmo. Não há alternativa para este homem falho, portanto. Ele está com seus dias contados. A mulher que renasce nele será bem acolhida e possivelmente o fará feliz, como ja se sinte quando ás vezes ela emerge e passa a fazer parte de sua cotidianidade clandestina.
Olho os dias e as noites. Não escondo mais minha tristeza e nem minha angústia; com a ternura da brisa, soprei a dor para bem longe do meu centro. Solto-me do abraço, saio ás ruas. No céu, já clareando, desenha-se, finitamente, a lua.
A lua tem duas noites de idade. Eu, apenas uma.

A LUA TEM DUAS NOITES DE IDADE

Já algum tempo atrás, retornei aquilo que particularmente considero uma viagem sem volta. Refiro-me a esta outra matéria, dotada de espirito e personalidade; esta outra mulher que habita dentro e fora de mim e que gradativamente me possui. Pressumo que agora ela definitivamente veio para ficar, e eu estou disposto a aceitá-la e assumi-la. Houve, é claro, outras tentativas em que ELA, por inúmeras vezes tentou manifestar-se, tentando a todo custo, matar este homem por fora. Este homem exterior e falho. Por muito tempo, este homem falho e exterior, vem medindo forças com essa mulher interiormente forte e que insistentemente luta para se firmar existencialmente enquanto matéria e espírito. Não convem mais este embate tolo entre mim e ela, por isso, deixo-a fluir livremente dentro e fora de mim, e já não cogito mais em mudar-me para uma outra cidade e viver esta outra vida. Aqui mesmo, em minha cidade ainda pequena e provincial, me assumirei definitivamente, custe o que custar.
Marcia, e uma mulher intensamente forte e tencionalmente frágil e doce. Humana até, eu diria. Tão assustada e ansiosa por descobertas que virão oportunamente. Sobretudo, feliz, mesmo com as rejeições, provocações e selvagerias que provem do comportamento humano que há nos outros; às vezes, sendo necessário que o homem falho venha socorrê-la de alguns perigos eminentes. Mas ate quando, tendo em vista o desaparecimento deste homem falho. e É sobre este homem falho, que gostaria de falar um pouco...

ADORMEÇO ÀS MARGENS DE UMA MULHER

"Eu adormeço às margens de uma mulher: eu adormeço ás margens de um abismo"
(Eduardo Galeano).

a Sejam todos bem vindos ao meu blog. Aqui, revela-se por inteira a mulher que existe dentro de mim; a mulher que sempre mantive em segredo, mas que agora, resolvo emfim, libertá-la das amarras de um martirio interior; da crepitação do meu eu. Ahh, como me sinto infinitamente realizada. Absolutamentge livre e feliz. Quero com voces, compartilhar cada momento dessa minha particular transcendentalização. O nascimento deste outro ser.E que saltem ao céu as aves da folhagem quando como uma luz esbanjadora, rompe em prantos e risos de felicidade suprema, a árvore da nova vida.