Levanto-me cedo para um novo Amanhã. Docemente viva. Pulsante. A cada expectativa de um novo dia na vida dessa mulher, faz-lhe vibrar o corpo todo, como se milhões de agulhas coloridas de cristal penetrasse-lhe amorosamente o âmago das coisas mais secretas e indivisíveis de seu mais profundo intimo. Radiante e feliz, abro as janelas da vida. Janelas que dão vista para o centro de minha cidade. Moro bem no centro da cidade. No centro de tudo. Até de mim mesma. Por esta razão, considero-me um elemento nevrálgico. Vibrante. Viva. AHH, ESTE DIA; esta manhã de novembro infinitamente doce e bela insinuando-se lá fora como uma amante foguenta e leviana. Uma densa e úmida névoa – muito comum nessa época de ano – cobre prédios, casas, pontes e gentes, comunicando-me através de seu mistério, um dia relativamente agradável; um convite, portanto, a uma boa caminhada. A uma aventura. Essa mulher não cessa de buscar. O amor está lá fora. Em algum lugar escondidinho sob a densa névoa. Espreguiço-me como uma gata sonolenta. Uma brisa marota vem acariciar-me as finas vestes de dormir. Não, definitivamente não ficarei em casa reclusa. Refém de meus devaneios mais secretos de mulher. Não foi dessa maneira que planejei minhas férias. A esta altura, sozinha em casa. Selminha saíra logo cedo para o trabalho, espalhando pelos cômodos, o aroma inebriante e inconfundível do seu perfume. Num estalar de dedos, resolvo sair. Livro-me, portanto, das vestes delicadas de dormir e caminho deliciosamente nua em direção ao banheiro para um longo e delicioso banho de todas as manhãs. Ligo o chuveiro e me permito deliciar com o toque morno e suave da água precipitando-se sobre meus ombros, nuca, costas, ancas, coxas, pernas, o corpo todo, provocando-me sucessivas pulsações elétricas de intenso prazer, como, se, DEIXA EU EXPLICAR, estabelecesse entre mim e a água, uma simbiose orgasmal. Penso que se todos os HOMENS espalhados nesse planeta possuíssem a ternura e o toque mágico deste elemento químico FISICO-CORPÓREO, o mundo seria menos bruto e egoísta. Ahh, eu e meus delírios tolos. Seguimos, portanto.
Ganho finalmente o frescor das ruas. Sinto-me alegre e feliz. E bonita também. E com febre também. A febre é por conta de minha natureza ultra-romântica. Enquanto caminho, sinto o bafejar frio e delicado da brisa em meu rosto. Sou tomada de intensa felicidade nesse dia. As pessoas me olham passar e eu sinto o sorriso delas. A alegria delas. A alegria viva e pulsante da vida. Deus criou o mundo de batom e salto alto. Espalhou sobre o mundo toda sua alegria e toda sua feminilidade. Fez um dia simples como este. Por isso ás vezes não consigo entender como os seres humanos tornam este mundo tão complicado de viver. Não entendo as guerras, a violência, o preconceito, o egoísmo, as diferenças sociais e até mesmo as discussões mais triviais que sempre cambaleiam para as tragédias. Tudo me foge a compreensão. Como por exemplo agora, em que caminho reflexiva pelas ruas de minha cidade, vendo os enfeites natalinos enfeitando prédios, praças, lojas e casas; as pessoas fazendo suas compras de natal. Toda essa harmonia em volta só porque se aproxima esta data? Por que não haver toda essa confraternização em outras datas também? Toda essa mesquinhez e disfarçatez dessas pessoas nessa época de ano me faz um certo mal. Talvez por sempre ter olhado as coisas por uma outra matiz. Mas é um dia belo e agradável e não permito o tristicídio. Sorrio e caminho. Tolice é querer mudar o fluxo das coisas. Longe de mim tal pretensão.
Entro agora em uma confeitaria que fica de esquina e peço um café bem quente com pãezinhos de queijo. Adoro paeszinhos de queijo. A vida bem que podia ser simples como paeszinhos de queijo. Olho discretamente as pessoas que tranquilamente tomam seu café da manhã. É a primeira vez que – inteiramente montada, Márcia adentra este recinto. Ninguém nota a diferença. Nem a própria dona do estabelecimento. O que me deixa mais tranqüila e mais á vontade. Aos poucos sinto que vai se dissipando dento mim, todo o meu temor e insegurança de me revelar em público, como mulher. Antes calculava cada ângulo dos meus passos: os lugares onde devia ir, por onde andar, em que banco sentar, a hora de entrar e sair dos lugares. Não vou dizer que mudou muita coisa. Ainda sou deveras precavida em se tratando de alguns lugares onde não me atrevo freqüentar. Sei que não devo nada a ninguém. Não estou matando e nem roubando. Só estou assumindo uma outra condição de vida e estou certo de ser feliz assim. Mas há ainda há receios e temores, não vou negar. Apesar de todo o apoio da companheira Selma e da minha firmeza e coragem em me assumir publicamente, ainda me sinto sozinha e fragilizada. As coisas não são tão simples e aceitáveis quanto parecem ser. A sociedade é hostil. As pessoas são falsas e hostis quando se trata diretamente de situações como essa. Mas sorvo tranquilamente meu café e vou pagando pra ver. Vou girando a roleta ao contrário. Subindo este rio ao invés de descer.
Enfim, alguém me notou. Uma garotinha de tranças sentada junto à mãe – duas mesas frente à minha. Ela me olha com certa curiosidade. Calculo que tenha uns cinco ou seis anos. Me olha curiosa. Os cenhozinhos dela franzidos. Parece não entender muito. Pisco para ela e ela automaticamente olha para mãe buscando uma explicação materna. A mãe sussurra-lhe alguma coisa no ouvido. Uma cena estranha e engraçada. Talvez tudo isso seja fruto de minha imaginação. Mas a mãe agora olha para mim e é um olhar que decifro muito bem. Desvio os olhos olhando pela vidraça a neblina que parece se dissipar. Fico assim olhando para o branco lá fora. Volto à realidade. Mãe e filha deixam o lugar, e um casal de idosos tomam assento e conversam entre si. Uma conversa sem pressa; com algumas lacunas de reflexão. Com a partida da garotinha e de sua mãe, me sinto agora invisível aos olhos dos outros. Termino meu café e peço um suco de goiaba. Enrolo com o suco e nem vejo o tempo passar. Olhando agora para os velhos á mesa, penso na ternura do tempo: o templo implacável e doce. Ontem eu tinha 25 anos, hoje tenho trinta e cinco, amanhã terei quarenta, depois de amanhã quarenta e cinco. Dentro em breve estarei velho. Estarei só ou acompanhada de alguém; feliz ou infeliz, tomando um café nesta mesma esquina ou em qualquer outro lugar. Ou posso já estar morta. Fecho meus olhos e tento imaginar a minha amarga ou doce velhice. O futuro é uma incógnita. O medo das coisas futuras me apavora. Por isso é que se deve aperfeiçoar o presente. Vivermos em harmonia com nós e com os outros.
O tempo. A mocidade. A velhice. A vida. A brisa fria me sopra outra vez carinhosamente o rosto. Mexe com as franjinhas de minha peruca. Pago o café e deixo enfim, a confeitaria. São nove horas da manhã de uma sexta feira. Vou a esmo pelo centro de minha cidade. Olho para o alto. A névoa vai se desfazendo e revelando a face de um sol maroto que maliciosamente me sorri. Misturo-me à multidão. Rostos anônimos. Vidas secretas se esbarrando. Destinos que se cruzam. Corpos que se fundem. Olho as vitrines das lojas, entro em algumas delas, avalio o preço das coisas; arranco risinhos furtivos das atendentes quando faço ressalva ás minhas economias, “Prometo voltar um outro dia tá, bom?” E sigo. Ouço assobios e leves cantadas. Um vendedor ambulante mais afoito resvala sua mão na minha. Um passante me cumprimenta baixinho: “Bom dia, gata!” Sorrio de tudo.
Ganho finalmente o frescor das ruas. Sinto-me alegre e feliz. E bonita também. E com febre também. A febre é por conta de minha natureza ultra-romântica. Enquanto caminho, sinto o bafejar frio e delicado da brisa em meu rosto. Sou tomada de intensa felicidade nesse dia. As pessoas me olham passar e eu sinto o sorriso delas. A alegria delas. A alegria viva e pulsante da vida. Deus criou o mundo de batom e salto alto. Espalhou sobre o mundo toda sua alegria e toda sua feminilidade. Fez um dia simples como este. Por isso ás vezes não consigo entender como os seres humanos tornam este mundo tão complicado de viver. Não entendo as guerras, a violência, o preconceito, o egoísmo, as diferenças sociais e até mesmo as discussões mais triviais que sempre cambaleiam para as tragédias. Tudo me foge a compreensão. Como por exemplo agora, em que caminho reflexiva pelas ruas de minha cidade, vendo os enfeites natalinos enfeitando prédios, praças, lojas e casas; as pessoas fazendo suas compras de natal. Toda essa harmonia em volta só porque se aproxima esta data? Por que não haver toda essa confraternização em outras datas também? Toda essa mesquinhez e disfarçatez dessas pessoas nessa época de ano me faz um certo mal. Talvez por sempre ter olhado as coisas por uma outra matiz. Mas é um dia belo e agradável e não permito o tristicídio. Sorrio e caminho. Tolice é querer mudar o fluxo das coisas. Longe de mim tal pretensão.
Entro agora em uma confeitaria que fica de esquina e peço um café bem quente com pãezinhos de queijo. Adoro paeszinhos de queijo. A vida bem que podia ser simples como paeszinhos de queijo. Olho discretamente as pessoas que tranquilamente tomam seu café da manhã. É a primeira vez que – inteiramente montada, Márcia adentra este recinto. Ninguém nota a diferença. Nem a própria dona do estabelecimento. O que me deixa mais tranqüila e mais á vontade. Aos poucos sinto que vai se dissipando dento mim, todo o meu temor e insegurança de me revelar em público, como mulher. Antes calculava cada ângulo dos meus passos: os lugares onde devia ir, por onde andar, em que banco sentar, a hora de entrar e sair dos lugares. Não vou dizer que mudou muita coisa. Ainda sou deveras precavida em se tratando de alguns lugares onde não me atrevo freqüentar. Sei que não devo nada a ninguém. Não estou matando e nem roubando. Só estou assumindo uma outra condição de vida e estou certo de ser feliz assim. Mas há ainda há receios e temores, não vou negar. Apesar de todo o apoio da companheira Selma e da minha firmeza e coragem em me assumir publicamente, ainda me sinto sozinha e fragilizada. As coisas não são tão simples e aceitáveis quanto parecem ser. A sociedade é hostil. As pessoas são falsas e hostis quando se trata diretamente de situações como essa. Mas sorvo tranquilamente meu café e vou pagando pra ver. Vou girando a roleta ao contrário. Subindo este rio ao invés de descer.
Enfim, alguém me notou. Uma garotinha de tranças sentada junto à mãe – duas mesas frente à minha. Ela me olha com certa curiosidade. Calculo que tenha uns cinco ou seis anos. Me olha curiosa. Os cenhozinhos dela franzidos. Parece não entender muito. Pisco para ela e ela automaticamente olha para mãe buscando uma explicação materna. A mãe sussurra-lhe alguma coisa no ouvido. Uma cena estranha e engraçada. Talvez tudo isso seja fruto de minha imaginação. Mas a mãe agora olha para mim e é um olhar que decifro muito bem. Desvio os olhos olhando pela vidraça a neblina que parece se dissipar. Fico assim olhando para o branco lá fora. Volto à realidade. Mãe e filha deixam o lugar, e um casal de idosos tomam assento e conversam entre si. Uma conversa sem pressa; com algumas lacunas de reflexão. Com a partida da garotinha e de sua mãe, me sinto agora invisível aos olhos dos outros. Termino meu café e peço um suco de goiaba. Enrolo com o suco e nem vejo o tempo passar. Olhando agora para os velhos á mesa, penso na ternura do tempo: o templo implacável e doce. Ontem eu tinha 25 anos, hoje tenho trinta e cinco, amanhã terei quarenta, depois de amanhã quarenta e cinco. Dentro em breve estarei velho. Estarei só ou acompanhada de alguém; feliz ou infeliz, tomando um café nesta mesma esquina ou em qualquer outro lugar. Ou posso já estar morta. Fecho meus olhos e tento imaginar a minha amarga ou doce velhice. O futuro é uma incógnita. O medo das coisas futuras me apavora. Por isso é que se deve aperfeiçoar o presente. Vivermos em harmonia com nós e com os outros.
O tempo. A mocidade. A velhice. A vida. A brisa fria me sopra outra vez carinhosamente o rosto. Mexe com as franjinhas de minha peruca. Pago o café e deixo enfim, a confeitaria. São nove horas da manhã de uma sexta feira. Vou a esmo pelo centro de minha cidade. Olho para o alto. A névoa vai se desfazendo e revelando a face de um sol maroto que maliciosamente me sorri. Misturo-me à multidão. Rostos anônimos. Vidas secretas se esbarrando. Destinos que se cruzam. Corpos que se fundem. Olho as vitrines das lojas, entro em algumas delas, avalio o preço das coisas; arranco risinhos furtivos das atendentes quando faço ressalva ás minhas economias, “Prometo voltar um outro dia tá, bom?” E sigo. Ouço assobios e leves cantadas. Um vendedor ambulante mais afoito resvala sua mão na minha. Um passante me cumprimenta baixinho: “Bom dia, gata!” Sorrio de tudo.
São ainda nove horas da manhã. É o relógio da Matriz que alegre anuncia: mas um dia na vida dessa menina...
Manaus, 14/12/2009
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