sábado, 19 de dezembro de 2009

CROSSDRESSERS NAS NOVELAS


Cada vez mais o universo crossdressers vem ganhando espaço nas telinhas da TV, especialmente nas novelas do plim plim ou de outros canais também. O exemplo mais recente é na novela “Caras e Bocas”, e em uma outra novela da Record, cujo nome não me recordo agora. Mas, enfim, o surgimento desses personagens, entre aspas, nas teledramaturgias brasileiras, não vem de hoje, é claro. Uma outra novela - não muita antiga - chamada “Chocolate com Pimenta”, já tinha abordado este tema. Não o universo crossdresser em sua essência, como fazem até hoje essas novelas atuais, mas meros homens travestido de mulher, tentando escapar de alguma situação comprometedora, ou então tentando aproximar-se de alguma mulher com o objetivo de conquistá-la. Como é o exemplo dessas duas novelas que citei no inicio e que venho acompanhando esporadicamente. No caso da novela “Chocolate com Pimenta”, o crossdresser adolescente ali protagonizado, tentava fugir de uma condição feminina que lhe foi imposta desde pequeno. Outro requisito básico ao se retratar o universo crossdresser.
Em outras ocasiões também ocorridas nas novelinhas ou seriados do plim plim, e que eu tive o desprazer de ver e acompanhar, foram crossdressers fazendo pequenos papéis onde eram ridicularizados ou tratados com ironia. Em síntese, o crossdresser ainda não foi tratado com seriedade e respeito nas teledramaturgias brasileiras. Ainda não houve uma novela, seriado ou filme que abordasse com relevância este tema. Penso eu que tampouco isso venha ocorrer, pois que este tema, tratado como deveria ser, causaria muita polêmica e ranger de dentes, como aconteceu quando o homossexualismo foi abordado a primeira vez na televisão. Hoje, algo trivial e corriqueiro. Aparentemente aceitável pela sociedade. Mas um homem travestido de mulher, assumindo sua condição feminina, e vivendo livremente numa sociedade, ainda é, ao meu ver, um assunto longe de ser abordado.
Dentro ou fora das telas, o crossdresser, o travesti, o homossexual, etc, ainda é encarado como um pária da sociedade; um ser promíscuo, libertino, alienado. Um viadinho sem vergonha, é assim como somos vistos, e não adianta dizer que não; que há uma certa tolerância das pessoas com as quais convivemos cotidianamente. Elas podem até não se meter na tua vida, criticar de imediato a tua conduta e a tua escolha, mas por trás estão te condenando, te crucificando, rindo de você. Essas mesmas pessoas que vão á Igreja nos domingos, que tem o mesmo nível intelectual que o seu, emprego, família, enfim, uma vida relativamente saudável e decente.
Outro dia, conversando com um velho amigo dos tempos de faculdade, hoje professor de filosofia na escola onde trabalho, surpreendi-me com um infeliz comentário seu em que ele dizia que o homossexualismo é uma praga e que essa raça deveria desaparecer do planeta. Cogitei nervosamente que tratava-se de uma brincadeira, mas ele foi taxativo em repetir o que havia afirmado. Nem procurei saber o porquê, seria perda de tempo. Deixe-o sozinho à mesa e fui juntar-se com outros conhecidos meus. São essas coisas que me entristecem, sabe. Não quero aqui levantar alguma bandeira que já foi levantada. Mas queria na verdade que bem lá no fundo, as pessoas se conscientizassem que o homossexualismo não é alguma praga. Um pecado ou disfunção da sexualidade como alguns especialistas afirmam. Mas uma escolha. Uma opção de vida.
O crossdresser é só mais um novo ramo que surge do interior de uma grande árvore. Trocando em miúdos, uma categoria nova da prática homossexual. Mas, calma, é bom deixar claro que todo crossdresser não é necessariamente homossexual. Uma boa parte apenas se transveste de mulher para alimentar um fetiche particular. Outros encaram a coisa com mais profundidade, assumindo uma essência feminina 24 horas, como é o meu caso em que carrego inteiramente dentro de mim, uma alma feminina e adoro me relacionar amorosamente com homens.
O universo crossdressers não é um universo complexo como se acredita ser. É um mundo maravilhoso. Vai de cada um entender-se por dentro e saber o que exatamente busca. Acho que está a na hora das novelinhas globais ou não, deixaram de usar essas falsas maquiagens e falsos blushes ao retratarem o crossdresser, e começassem a abordar este tema com mais respeito e dignidade. Já que mexeram no formigueiro equivocadamente...


Manaus, 19 de dezembro de 2009

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